O racismo e as desigualdades socioeconômicas já afetam as oportunidades de aprendizagem na primeira infância, aponta uma análise da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal. O estudo, divulgado em 4 de novembro de 2026, identificou diferenças no desempenho de crianças de 5 anos conforme a raça ou cor e o nível socioeconômico das famílias.
A análise foi elaborada com base nos resultados do Estudo Internacional das Aprendizagens e Bem-Estar na Primeira Infância (IELS), realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O levantamento avaliou crianças matriculadas na pré-escola em três dimensões: aprendizagens fundamentais, funções executivas e habilidades socioemocionais.
Entre os resultados, a maior diferença relacionada à raça ou cor apareceu na numeracia emergente, que envolve habilidades como contar, comparar quantidades e reconhecer padrões. Crianças pretas tiveram média de 423 pontos, enquanto crianças brancas alcançaram 463 pontos, uma diferença de 40 pontos. A média das crianças pardas foi de 447 pontos.
Também foi registrada diferença estatisticamente significativa na memória de trabalho, capacidade de armazenar e manipular informações. Crianças pretas obtiveram 462 pontos; pardas, 463; e brancas, 471.
As diferenças foram maiores quando considerados simultaneamente raça ou cor e nível socioeconômico. Em numeracia, crianças pretas, pardas ou indígenas de famílias com nível socioeconômico baixo tiveram 416 pontos, enquanto crianças brancas ou amarelas de famílias com nível socioeconômico alto chegaram a 500 pontos, uma diferença de 84 pontos.
Na literacia, relacionada ao desenvolvimento da linguagem, à compreensão de narrativas curtas, palavras e sons, a diferença entre os grupos foi de 55 pontos. O primeiro grupo alcançou 477 pontos, e o segundo, 532. Em memória de trabalho, as pontuações foram de 441 e 496, respectivamente.
Segundo Marina Fragata Chicaro, diretora de Políticas Públicas da fundação, raça, cor e nível socioeconômico não determinam a capacidade de aprendizagem. Para ela, o desenvolvimento é influenciado pelas condições de vida, pelo acesso a direitos e pelas oportunidades oferecidas às crianças.
A fundação afirma que desigualdades não enfrentadas desde a primeira infância podem se acumular ao longo da vida e ampliar diferenças nas trajetórias educacionais. Entre as medidas apontadas estão o monitoramento dos dados por raça ou cor, a combinação de políticas universais e focalizadas e a qualificação da oferta educacional em territórios vulneráveis.
A análise também defende a formação continuada de professores, a ampliação das oportunidades de aprendizagem em numeracia e a integração entre educação, saúde e assistência social. O estudo cita ainda políticas já existentes, como a Política Nacional Integrada da Primeira Infância e a Política Nacional de Equidade, Educação para as Relações Étnico-Raciais e Educação Escolar Quilombola.






































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