A 2ª edição da feira Febre de Arte, encerrada no domingo (20), em Fortaleza, reuniu especialistas e representantes de organizações para discutir políticas sobre drogas, cannabis medicinal e os impactos sociais da proibição. Durante os painéis, os participantes defenderam que os eleitores priorizem, nas eleições deste ano, candidatos com propostas voltadas à justiça social e ao desenvolvimento de políticas públicas para o tema.
O evento foi realizado no Anfiteatro Sérgio Motta, do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura. Segundo dados apresentados na programação, havia ao menos 44 candidatos engajados de alguma forma na legalização ou descriminalização da cannabis até a semana anterior à feira. O levantamento é da Kaya Mind, núcleo de soluções para o mercado da cannabis. Os nomes estão distribuídos por dez partidos, e a maioria concorre a cargos no Poder Legislativo.
A médica de família e comunidade Magda Almeida, docente negra da Universidade Federal do Ceará (UFC), abordou o uso medicinal da cannabis e as diferenças de resposta entre pacientes. Ela criticou a adoção de doses genéricas na indústria farmacêutica e citou a máxima “comece lento e continue lento” como referência para tratamentos individualizados.
Magda também mencionou a pregabalina, medicamento indicado para quadros como epilepsia, ansiedade e fibromialgia, condições que, segundo ela, podem ser atenuadas pela cannabis. O remédio é vendido sob prescrição médica e pode provocar efeitos colaterais, como alterações de humor, falhas de memória, alucinações e síndrome de abstinência em caso de interrupção repentina.
Dados da Blis Data apresentados no encontro apontam mulheres mais velhas e empregadas como as principais consumidoras de cannabis medicinal importada no Brasil. De acordo com a empresa, as pacientes buscam principalmente alívio para distúrbios do sono e dores crônicas.
Os debates também relacionaram a política de drogas ao encarceramento da população negra, à seletividade policial e ao fortalecimento de facções e milícias. O advogado Italo Coelho afirmou que pessoas negras podem ser detidas por portar pequenas quantidades de cannabis, enquanto pessoas brancas têm maior facilidade de acesso a medicamentos por meio de prescrição.
Tamára Silva, cofundadora da Marcha da Maconha de Fortaleza e coordenadora da Rede Nacional de Feministas Antiproibicionistas (Renfa), criticou a concentração das ações de segurança pública na repressão. Para ela, esse modelo amplia o número de prisões sem enfrentar os efeitos sociais e econômicos do narcotráfico.
A advogada Bianca Cardial, integrante da Renfa e da Rede Reforma, destacou ainda os impactos da prisão sobre as famílias. Conforme relatório da Pastoral Carcerária Nacional divulgado no fim de agosto, gastos com itens básicos de higiene e alimentação podem consumir cerca de 70% de um salário mínimo por família que visita um detento semanalmente. O custo anual estimado chega a R$ 4,33 bilhões.
A Febre de Arte foi organizada pela Agência Liamba 360° e pela Adapta Associação Canábica, com participação da Auê Feira. A programação incluiu a Rua das Associações, espaço destinado a organizações nordestinas que atendem pacientes usuários de cannabis medicinal.





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