Blog Anderson Souza · há 19 meses

Quem é Viviane Batidão, a rainha do tecnomelody que quer conquistar o Brasil

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BELÉM, AL (FOLHAPRESS) – Por volta de 2017, Viviane Batidão decidiu subir suas músicas no Spotify. Sem saber que poderia ser remunerada pelas reproduções no streaming, ela passou três anos sem ver a cor do dinheiro.

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“Um amigo, que se dizia amigo, subiu as faixas e botou a conta bancária dele. Fui roubada”, diz a rainha do tecnomelody. “Aqui você fazia música, saía soltando, nem em plataforma subia. Quando falo que o Brasil não consome nossa música, é verdade, porque a gente consegue sobreviver do que faz aqui -e vive bem.”

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O show que ela fez no festival Psica, em Belém, no sábado (14), não deixa dúvidas. Viviane foi recebida com a pompa de estrela pop que ela tem no norte do país, e apresentou seu repertório de quase 20 anos de tecnomelody com números performáticos e a pirotecnia que o paraense adora, tudo para uma plateia magnetizada.

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Mas ela é uma rainha dentro de um ecossistema musical autossuficiente, com códigos e um modo de funcionamento próprio, que não é feito para ser compreendido no resto do país. Mais que isso, sua obra e persona resultam dessa cultura, que ela agora quer levar ao Brasil sem se vender no meio do caminho.

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“Eu estava muito conformada em fazer o que faço dentro do meu estado, para o meu público”, diz. “Fui muito clara com o escritório [que a contratou para tentar nacionalizar sua música]. Vamos expandir, mas não quero deixar de ser quem eu sou. Não quero me moldar para encaixar num padrão sulista. Minha missão é tentar levar o que de fato a gente consome aqui. Se não der certo, volto feliz. Mas se der, vai ser muito bom.”

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Esse movimento ficou claro no último prêmio Multishow, em que Viviane saiu vencedora da categoria Brasil. Em seu discurso, ela se apresentou como representante “de uma cultura, um gênero e um povo”, posto que ela conquistou a partir de 2007, quando pegou a experiência de cantar na igreja, na escola e em bandas de baile em Santa Isabel do Pará para tentar criar uma música inédita.

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“Mesmo sendo de um interior muito próximo à capital, eu era do interior e pobre. Tinha medo até de escada rolante e elevador”, ela diz. “Com uns 7 anos, eu ouvia muita cumbia, merengue, lambada e os ritmos aqui de cima. É diferente da galera do sul e sudeste. Por causa das aparelhagens, eu dormia e acordava ouvindo brega. Não tem como fugir de algo que está entranhado dentro do meu ser.”

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Viviane, 40, tinha 20 e poucos anos e trabalhava numa loja vendendo lingerie quando um amigo chegou até ela com uma base instrumental. Ela compôs “Vem Meu Amor”, clássico do tecnomelody, sob os olhares da patroa e em poucos meses a música já era febre no norte.

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A cantora estava na loja quando recebeu a ligação de um contratante de Macapá perguntando se ela era a Viviane, e se fazia shows. “Eram três shows por R$ 4 mil. Eu disse sim na hora! Trabalhava um mês para ganhar R$ 350”, afirma. Ela era tão tímida, diz, que contratou um cantor só para fazer a comunicação com o público nesses primeiros shows.

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Contagiante, “Vem Meu Amor” é uma canção que poderia servir de definição do que é o tecnomelody. O estilo surgiu como um desdobramento do tecnobrega, que na virada dos anos 1990 para os 2000 transformou o brega paraense com batidas e um modo de fazer eletrônico.

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Menos acelerado, com arranjos minimalistas de teclado e temas de romances, o tecnomelody já existia antes de Viviane. E encontrou um terreno fértil para se desenvolver na cidade da cantora, de onde vem Betinho Izabelense, DJ e produtor com quem ela trabalha até hoje, e referência no estilo.

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Seu nome artístico veio de uma variante ainda mais específica do tecnomelody feito em Santa Izabel por bandas como AR-15 e Os Brothers, em torno de 2006. “Na época que lançamos essa batida, por ser um pouco mais pesada, os DJs falavam ‘solta o batidão’. Veio daí”, diz.

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Lançando música atrás de música, e inserida no circuito das aparelhagens, Viviane ganhou atenção nacional em programas de auditório. Participou das atrações de Faustão, então na Globo, e do programa de Marcos Mion no SBT, mas nunca explodiu de fato no resto do Brasil.

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Àquela altura, e na verdade até hoje em alguma medida, Viviane sequer se considerava uma grande cantora. “Acho que sou esforçada”, ela ri. “Sou cantora, mas vejo várias outras com muita técnica, e não consigo, tenho minhas limitações. Sou contralto, tenho uma voz mais básica, não consigo brincar muito de melisma.”

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Por volta de 2012, já estabelecida, ela teve uma conversa com o produtor Carlos Eduardo Miranda, morto em 2018, que se tornou uma das pontes da música paraense com o resto do Brasil. O papo foi um divisor de águas para a construção de Viviane enquanto artista.

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“Tem gente que canta muito bem e não consegue ser consumido. O teu problema de desafinar, isso você aprende com aula de canto”, disse Miranda, ela recorda. “Você tem algo que nem gente que canta bem tem, que é estrela. Isso você nasce, não aprende.”

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Depois dessa conversa, Viviane correu para a aula de canto, e hoje é perceptível o domínio que tem dos microfones no palco, ainda que não faça tantas estripulias. Sua dedicação foi direcionada ao desenvolvimento estético de sua música e visual.

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Parte do apelo da cantora é fazer versões em português de sucessos gringos na linguagem do tecnomelody. Viviane nunca faz tradução das músicas, e nem mesmo os arranjos se parecem com os originais. De certa forma, é quase como compor uma canção original, ainda que a partir de um esqueleto melódico já existente.

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“Eu procuro nem ler tradução no Google. Quando fazia versão, queria entender aquela sonoridade, achar algo que se parecesse com uma palavra em português. A partir daquilo eu começava a montar a música. Só descobria a letra da música depois que a minha já estava estourada.”

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Ela diz que sempre deu os créditos aos criadores, que incluem de Rihanna à cantora americana LP -no caso dessa última, transformou “Lost on You” no hit “Olha Bem pra Mim”. Viviane diz que não faz versões das músicas em espanhol que fazem sucesso no norte do país, e nem de músicas nacionais.

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Abriu uma exceção para “Envolver”, de Anitta, que apesar de brasileira é quase toda cantada em espanhol. “Em castelhano, falam muito parecido com a gente, para mim fica muito cópia”, diz. “Já não vou ter muito trabalho, deixa eu pelo menos criar a letra.”

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Ser uma artista pop no estilo de Beyoncé ou Madonna, ela diz, é seguir uma tradição paraense. “Para mim, Joelma é a maior artista pop do Brasil”, afirma. “Sou fã da Ivete, da Anitta, da Ludmilla, mas a Joelma vem do Norte e sabemos que existe um preconceito com o que fazemos aqui. Ela se manteve sendo respeitada, com identidade visual única -cabelo loiro, bota, coreografia, dançarinos.

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Poderia ter se rendido ao que vem de fora ou está na tendência, mas se manteve firme à identidade dela.”

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A inspiração não está só nas botas gigantes que Viviane usou em seu primeiro show. Quando o tecnomelody entrou num momento de baixa, há cerca de dez anos, ela não abandonou o gênero. “Quase todas as bandas de tecnomelody começaram a gravar arrocha. Ficamos eu e AR-15”, diz. “Os cachês estavam desvalorizados, não tinha show.”

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Ela não só atravessou a maré baixa como renasceu maior. Foi só depois da pandemia que a cantora aceitou a coroa de rainha -que, ela diz, foi dada pelo povo, e não por ela mesma.

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Para ganhar o Brasil, Viviane precisa enfrentar também a maneira de distribuir música. No Pará, entrar no repertório de uma aparelhagem é fundamental para ter sucesso nesse segmento.

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“Quando surgi, era o auge das aparelhagens. Eu e Betinho tínhamos uma demanda de 15 músicas por mês. A gente fazia, o dono da aparelhagem pegava e não subia em nada. Ficou tudo disperso.”

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Hoje, Viviane calcula que possui um terço das cerca de 1.000 músicas que gravou na carreira. Há uns seis anos, ela teve de reaprender a cantar algumas músicas para fazer uma turnê no Mato Grosso. “O pessoal lá consumia as músicas que eu já nem lembrava”, diz.

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A cantora levantou cerca de 70 faixas da época que fazia o batidão, sucessos inacessíveis para quem quer ouvir. Quer lançar essas músicas no streaming, mas teme que elas vão se perder na lógica dos algoritmos.

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De qualquer forma, seu show está pronto para chegar em qualquer praça do país. Nos últimos anos, Viviane aumentou o cachê e passou a investir em estrutura de palco, coreografias e na criação de um espetáculo cênico em que não fica devendo nada para as divas pop do sudeste.

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Mas o segredo para aproveitar esse momento de visibilidade da cultura paraense, próximo da COP30, ela diz, é não chegar sozinha. Se mais artistas da região estiverem fazendo sucesso fora, fica mais fácil para quem chega.

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Mais do que alavancar um nome, o importante é reconhecer toda uma cultura, com suas idiossincrasias e modos particulares de existir.

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“O topo não derruba a base. Mas a base derruba o topo. Se tu chegar sozinha lá, e te derrubarem, a base cai e o topo cai. Agora, se tu chegar lá em cima e levar um movimento junto, mesmo se tu cair, não derruba a base.”O jornalista viajou a convite do festival Psica

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