Blog Anderson Souza · há 16 meses

Premiê de Portugal se submeterá a moção que pode tirá-lo do cargo

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LISBOA, PORTUGAL (FOLHAPRESS) – Uma crise-relâmpago durante o Carnaval poderá derrubar o governo do primeiro-ministro de Portugal, Luís Montenegro -que, há menos de dois meses, era o líder partidário mais popular do país.

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Em uma pesquisa divulgada em 15 de janeiro, o premiê do Partido Social Democrata (PSD), de centro-direita, tinha 53% de avaliação positiva e 38% de negativa- enquanto seus principais opositores, o socialista Pedro Nuno Santos e o ultradireitista André Ventura, mergulhavam em avaliações negativas de, respectivamente, 59% e 69%.

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A situação de Montenegro se deteriorou em poucos dias, diante de acusações de conflito de interesses e de um xadrez político típico dos parlamentarismos europeus.

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A polêmica que envolve Montenegro se concentra numa palavra: Spinumviva. Esse é o nome da empresa que o premiê criou em janeiro de 2021 com a mulher e os filhos, num período em que estava fora da atividade política. A Spinumviva atua nas áreas de viticultura, negócios imobiliários e vários tipos de consultoria.

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Quando retornou à política, em junho de 2022, Montenegro transferiu 92% das cotas da empresa para a esposa e 8% para os dois filhos. De acordo com alguns juristas portugueses, a transferência entre cônjuges não tem efeito quando se trata de casamento em regime de comunhão de bens, o que é o caso.

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Na véspera do Carnaval, uma reportagem do jornal Expresso mostrou que uma empresa proprietária de cassinos, a Solverde, pagava € 4.500 (R$ 28 mil) mensais à Spinumviva em troca de consultoria na área de segurança de dados. A oposição acusou o primeiro-ministro de conflito de interesses, dado que cassinos em Portugal são concessão estatal. Começou neste momento o xadrez político, e o primeiro lance coube ao próprio Montenegro.

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No último sábado (1º), o premiê fez um pronunciamento na TV. Disse que não iria interferir em nenhum caso relacionado com clientes da Spinumviva e que a mulher abriria mão das cotas da empresa.

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E fez seu lance, que a oposição considerou um blefe: caso o PS (Partido Socialista), o segundo maior no Parlamento, não lhe desse condições para governar, Montenegro entraria com uma moção de confiança -instrumento pelo qual o governante pede que a Assembleia da República renove seu aval no governo. Assim, empurrou para a oposição o ônus de derrubar um primeiro-ministro com alguma popularidade.

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Pedro Nuno Santos, o líder do PS que ambiciona a cadeira de Montenegro, disse que sua sigla votaria pela destituição de Montenegro caso a moção de confiança fosse apresentada. E dobrou a aposta: caso Montenegro estivesse blefando e desistisse da moção, os socialistas pediriam uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar os negócios do primeiro-ministro.

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Restaram a Montenegro duas jogadas possíveis: cair rápido e eventualmente disputar novas eleições ou sangrar em público durante meses com uma CPI em que sua família seria convocada para depor. Escolheu a primeira.

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Na Quarta-Feira de Cinzas, reafirmou que submeteria ao Parlamento uma moção de confiança, o que equivaleria, na prática, a abrir mão do cargo. O texto da moção foi aprovado pela cúpula do partido no início da tarde desta quinta (6), e o Legislativo deve votá-lo na próxima terça (11).

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No semiparlamentarismo português é o premiê quem governa, mas cabe ao presidente da República resolver impasses em situações de crise. No caso da queda de um primeiro-ministro, ele pode convocar novas eleições ou solicitar um outro nome do mesmo partido. Marcelo Rebelo de Sousa decidiu se pronunciar na própria Quarta de Cinzas: disse que, caso Montenegro caísse, um novo pleito pode ocorrer no dia 11 ou 18 de maio.

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Montenegro, que deve se reapresentar como candidato, aposta tudo na própria popularidade. Se perder, abre caminho para a volta do domínio socialista e um possível fortalecimento da ultradireita do Chega. Portugal também terá eleições municipais em setembro ou outubro e presidenciais em janeiro de 2026.

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