Blog Anderson Souza · há 17 meses

O cemitério da internet: um quarto das páginas desapareceu em dez anos

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(FOLHAPRESS) – Das 630 milhões de páginas ativas na internet em 2013, 252 milhões sumiram sem deixar uma certidão que apontasse o óbito.A estimativa de que 38% da web daquele ano saiu do ar é um cálculo conservador, dizem os autores de um artigo publicado pelo Pew Research Center.

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Durante os dez anos que se passaram até 2023, um quarto dos endereços da web desapareceu, de acordo com a análise de uma amostra de 1 milhão de páginas colhidas no Common Crawl, uma entidade sem fins lucrativos que guarda registros de como a internet já foi.

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Os links salvos na base de dados nem sempre funcionam, devido às limitações de estrutura dos grupos que preservam a memória da web, como o Common Crawl, o Internet Archive e o archive.is.

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Outra parcela do conteúdo é removida por causa de ações que pedem a retirada dos arquivos de páginas por violação de direitos autorais.

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Os autores chamam a tendência das páginas desaparecerem, deixando poucos vestígios, de “apodrecimento digital”. “Foi uma boa metáfora para ilustrar que a degradação é involuntária, é um reflexo da estrutura da internet e da falta de manutenção, devido à falta de incentivos e ao tamanho da rede”, diz o coordenador do estudo, Aaron Smith.

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O artigo considera apenas as páginas que, ao serem buscadas, apresentaram um dos nove códigos usados pelo servidor para indicar que um endereço está fora do ar -o mais comum é o 404 Not Found.

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Foi o levantamento que pôde ser feito com automação e sem checagem humana.*VEJA OS CÓDIGOS USADOS PELOS PESQUISADORES PARA CONFIRMAR A MORTE DA PÁGINA

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Se um endereço na web não responde com as informações esperadas, o usuário recebe um alerta de erro204 No ContentIndica que o sinal chegou ao servidor, mas não há conteúdo armazenado no endereço

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400 Bad RequestIndica que o servidor não processou a solicitação por algum erro no endereço

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404 Not FoundIndica que o servidor não conseguiu encontrar o endereço indicado

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410 GoneIndica que o conteúdo deixou de estar disponível no servidor

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500 Internal Server ErrorIndica que um erro no servidor impede o pedido de ser realizado

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501 Not ImplementedIndica que o servidor não tem condições técnicas de executar o pedido

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502 Bad GatewayIndica que o endereço que servia de ponte para outra página, mas houve um problema no redirecionamento

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503 Service UnavailableIndica que o servidor não está pronto para atender ao pedido

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523 Origin Is UnreachableIndica que um servidor não pôde ser contatado por um serviço intermediário de proteção*

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O filtro da pesquisa deixou passar, por exemplo, páginas que continham informações sobre um assunto e depois foram compradas para exibir anúncios -quando isso ocorre, o conteúdo original foi perdido, mas a pesquisa não conseguiu detectar essa perda.

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É uma prática comum na internet, como mostrou reportagem da Folha de S.Paulo sobre sites do governo tomados por propaganda de apostas online e referências à pornografia infantil.

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Foi o que aconteceu com o blog de entretenimento Morri de Sunga Branca, criado em 2009, e que chegou a reunir mais de 600 mil seguidores no Facebook.Os donos do portal, após fecharem as portas do negócio em 2020, perderam o controle sobre o endereço porque deixaram de pagar a taxa de hospedagem, recorda o publicitário Thiago Pasqualotto, um dos responsáveis pelo blog.

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Hoje, o link da página que serviu de epílogo do projeto redireciona o usuário a um site de apostas indiano.

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“A gente não foi atrás e, quando viu, já não tinha esse arquivo”, diz Pasqualotto. Hoje, ele afirma que não se arrepende da perda do registro. “Acho muito bom, porque o Morri fica naquela memória afetiva, as pessoas lembram o quanto era legal, sem parecer chato porque o mundo mudou e o ritmo é outro.”

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O publicitário e a sócia, Bianca Muller, decidiram encerrar as atividades diante da concorrência com novos formatos emergentes no Instagram, voltados à cobertura de celebridades. O público passou a privilegiar a notícia reproduzida com velocidade na rede social à análise textual.

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“O Morri de Sunga Branca sempre foi um blog de humor, de crítica e de texto, nossa referência era a comunicação”, disse o ex-blogueiro. Hoje, segundo ele, talvez o formato encontrasse espaço em um podcast. “Naquele momento, manter o formato não dava mais.”

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Os fundadores do Morri de Sunga Branca deram prosseguimento à carreira nas redes sociais, cada um com sua conta e mais sucesso financeiro, em função do amadurecimento do mercado de marketing em torno dos influenciadores.

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A transição da chamada web 1.0, conhecida pelos blogs e pela livre navegação, para a web 2.0, das plataformas sociais, acelerou ainda mais o “apodrecimento digital”, avaliam os pesquisadores ouvidos pela reportagem.

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No caso do X (ex-Twitter), avaliado a fundo pela equipe do Pew Research Center, as publicações somem por decisões triviais. Basta o usuário excluí-las ou escolher tornar a própria conta privada.

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“As postagens nas redes sociais têm um tempo de vida geralmente mensurado em dias ou até mesmo horas e isso realmente nos chocou”, afirma Smith.

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Essa efemeridade afeta, além do registro histórico, o zelo por lembranças familiares e de pessoas falecidas, antes gravadas em álbuns de fotografia e diários.

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“Quando eu era jovem, nos anos 2000, houve uma preocupação em digitalizar tudo o que estava no papel para preservar no computador”, recorda Tamara Kneese, autora do livro Death Glitch (não lançado no Brasil), que reflete sobre como a internet revela lacunas durante o luto, quando precisamos manter recordações dos mortos.

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“Hoje, para fazer muito desse trabalho de preservação, dependemos desses grupos corporativos, que são altamente erráticos e controlados por bilionários que tomam decisões sem nos consultar”, diz Knesse.

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A Meta, por exemplo, impede que sites de arquivo, como o Internet Archive e o Common Crawl, salvem as publicações de Facebook e Instagram.“Normalmente, não pensamos que uma plataforma desse tamanho possa desaparecer, mas recentemente o X foi bloqueado pela Justiça no Brasil”, afirma a escritora.

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No passado, o país já viveu uma perda irreversível quando o Google decidiu fechar o Orkut por razões financeiras. “É o que estamos observando com a novela do TikTok nos Estados Unidos, com bilhões de vídeos e registros que podem sumir por um conflito geopolítico”, diz Kneese.

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