Blog Anderson Souza · há 34 meses

Governo Modi avança contra big techs na Índia e amplia censura da internet

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(FOLHAPRESS) – A liberdade de expressão na Índia sofreu mais um revés, dessa vez com a aprovação da Lei de Proteção de Dados Pessoais Digitais, em agosto.

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A legislação permite ao governo bloquear o acesso a determinadas plataformas online -“quando for do interesse público”- e enfraquece a Lei de Direito à Informação ao permitir que autoridades neguem fornecimento de dados considerados pessoais, como, por exemplo, salários de funcionários públicos.

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Trata-se do mais recente capítulo da investida do primeiro-ministro Narendra Modi contra as liberdades digitais na Índia.

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Especialistas e ativistas alertam para o que veem como crescente autoritarismo digital no país. Desde 2021, o governo do BJP, o partido de Modi, adotou uma série de leis e regulamentos para aumentar o controle sobre as plataformas digitais e a mídia online.

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A Lei de Proteção de Dados obriga qualquer fiduciário -empresas e órgãos que coletam, armazenam ou processam os dados- a “fornecer informações” requeridas pelo governo.

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Como sites noticiosos podem ser considerados fiduciários, a legislação abre brecha para a violação de princípios como o sigilo de fontes e até a privacidade de assinantes e financiadores da publicação.

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A mesma lei estabelece que, caso um veículo viole duas vezes as regras, ele pode ser bloqueado ao acesso público. Versões anteriores da lei previam exceções para veículos jornalísticos, tal como a Lei Geral de Proteção de Dados da União Europeia -mas o texto final aprovado, não.

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Trata-se, portanto, de mais uma via de censura de conteúdo online na Índia, que já se submetia à Lei de Tecnologia da Informação de 2000. Essa legislação já permitia ao governo bloquear conteúdo que fosse considerado uma ameaça “à soberania e à integridade da Índia, à segurança do Estado e à ordem pública”.

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O objetivo alegado da lei de proteção de dados é regular as big techs e punir vazamentos de dados sensíveis. No entanto, a legislação prevê isenção de responsabilidade para o governo e autoriza que o Executivo use dados dos cidadãos para finalidades para as quais não obteve consentimento explícito -em casos de “segurança nacional” ou mesmo para para oferecer serviços públicos como benefícios sociais e subsídios.

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Isso em um país onde o governo está fazendo uma coleta maciça de dados de seus cidadãos, com armazenamento de dados biométricos e informações sobre saúde, veículos e finanças de todos os cidadãos indianos.

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“Como o governo pretende usar esses dados?”, questiona Salman Waris, advogado especializado em tecnologia e sócio-diretor do TechLegis, escritório focado no setor. “A Índia está no mesmo caminho que a China, que está perfilando todos os seus cidadãos e usando essas informações do jeito que bem entende.”

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Em 2021, a Índia adotou as draconianas Regras de Tecnologia da Informação (TI). As plataformas passaram a ter novas obrigações para ter direito ao chamado “porto seguro” -imunidade de responsabilização por conteúdo ilegal postado por terceiros, a não ser após descumprimento de ordem de remoção do governo, semelhante ao Marco Civil da Internet no Brasil.

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As regras exigem que as plataformas removam conteúdo dentro de 36 horas após determinação do Estado e forneçam informações requeridas por órgãos de segurança. Também exigem que as big techs tenham representantes locais para responder a eventuais solicitações do governo. Essa última exigência chega a ser considerada uma forma de “fazer reféns”, já que os funcionários indianos podem acabar na prisão se não cumprirem as ordens.

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Também para garantir o “porto seguro”, as plataformas são obrigadas a informar os usuários sobre conteúdos que cuja publicação é proibida, como postagens que ameaçam a soberania e integridade da Índia, que atrapalham o relacionamento com países amigos, que incitam a violência, que perturbam a ordem pública e que atentam contra a decência e moralidade.

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Outra medida prevista nas regras, que está sendo questionada na Justiça, é a rastreabilidade de mensagens em aplicativos como WhatsApp, Telegram e Signal. Ela exige a identificação da primeira pessoa que enviou determinada mensagem, caso demandada pelo governo. Segundo as empresas, ela acaba com a criptografia e o sigilo das informações.

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As regras vieram na esteira de crescentes embates entre o governo Modi e as big techs. Em fevereiro de 2021, o país foi tomado por protestos contra as novas leis agrícolas, e o governo determinou a derrubada de perfis e postagens críticas ao premiê. A princípio, as plataformas resistiram, o que irritou o governo Modi.

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Quando o Twitter rotulou uma postagem de um integrante do partido governista como “mídia manipulada”, a empresa foi alvo de uma operação policial e seus funcionários receberam ameaças de prisão. A plataforma acabou cedendo e removeu 500 perfis.

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Em 2022, uma emenda às Regras de TI apertou ainda mais o cerco. Além de informar os usuários sobre conteúdo proibido, as plataformas deveriam “fazer esforços razoáveis” para evitar essas publicações, o que implica em ativamente filtrar e derrubar conteúdo.

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Em abril de 2023, uma nova emenda foi além e determinou que conteúdo relativo ao governo classificado como “falso” por um órgão estatal de checagem de fatos precisa ser removido das plataformas de internet -na prática, dando poder de censura ao governo Modi.

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“É uma ameaça à liberdade de imprensa, pois uma reportagem investigativa apontando atos de corrupção do governo pode ser removida com a desculpa de ser [considerada] ‘fake news'”, afirma Prateek Waghre, diretor de políticas da Internet Freedom Foundation.

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Em janeiro deste ano, o governo Modi invocou as leis e determinou ao YouTube que retirasse do ar em 36 horas trechos do documentário da BBC “Índia: A Questão Modi”. A obra trata da participação do premiê em conflitos violentos entre muçulmanos e hindus no estado de Gujarat, em 2002, quando ele era ministro-chefe (equivalente a governador).

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Modi também ordenou ao X (ex-Twitter) que removesse postagens que contivessem links para o documentário e indicou 50 dessas publicações.

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Segundo um integrante do governo informou ao jornal The Hindu, o documentário deveria ser derrubado porque minava a “soberania e integridade da Índia” e tinha o potencial de impactar “a ordem pública”.

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Agora, o governo indiano se prepara para levar a voto a nova Lei Índia Digital, que determina que as big techs só terão imunidade caso ela seja concedida diretamente pelo governo, como se fosse uma licença.

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“O governo está usando o tamanho do mercado da Índia [837 milhões de assinantes de internet, atrás apenas da China] como alavancagem para negociação. Se não seguirem as ordens, [as plataformas] estão fora do mercado”, diz Waris, do TechLegis.

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Enquanto isso, a Índia se mantém como o país que mais bloqueia a internet no mundo -segundo a Access Now, foram 84 interrupções no ano passado. Em segundo lugar veio a Ucrânia, um país em guerra, com 22 bloqueios.

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Jyoti Panday, pesquisadora do Projeto de Governança da Internet no Instituto de Tecnologia da Geórgia (EUA), diz entender a necessidade de regulação das big techs. “Sem a ameaça de legislação, elas não fazem nada, já vimos isso.” Mas, para ela, a Índia está criando o pior tipo de regulação. “É preciso ter legislação focada em transparência. Do jeito que a lei evoluiu na Índia, concentrou todo o poder nas mãos do governo.”

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Waghre, da Internet Freedom Foundation, faz outra ponderação. “Não queremos que as plataformas tenham o poder de decidir o que é liberdade de expressão. Mas queremos que o governo tenha esse poder?”

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Procurada, a embaixada da Índia não se pronunciou até a publicação desta reportagem. Nas redes sociais, o ministro de Estado para Tecnologia da Informação, Rajeev Chandrasekhar, defendeu a Lei de Privacidade de Dados. “A nova lei vai proteger os direitos de todos os cidadãos, permitir que a economia da inovação se expanda e autorizar que o governo tenha acesso legítimo [a dados] em casos de [ameaça] à segurança nacional e emergências”.

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Ele também rebateu as críticas contra as emendas de 2023. “Se [as plataformas] terão a imunidade, elas precisam obedecer. Não pode existir uma desculpa para escapar da responsabilidade. Não é uma tentativa de censurar conteúdo.”

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